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Marli Vanelli é pedagoga, especialista em educação especial com ênfase na educação inclusiva


Marli Timm Vanelli é pedagoga, especialista em educação especial com ênfase na educação inclusiva. Integra a equipe do NRE – Núcleo Regional de Educação em Cascavel – Paraná com o Projeto Escolas Mais Humanizadas. Formada pelo CDHEP em Fundamentos e Práticas da Justiça Restaurativa ao longo dos anos de 2010 e 2011. Ministra cursos de Fundamentos de Justiça Restaurativa – ESPERE no NRE e na Escola Restaurativa Marcos Claudio Schuster. Também ministrou o curso A Arte de Viver e Conviver uma versão adaptada dos fundamentos para adolescentes e o curso de Práticas da Justiça Restaurativa para professores na Escola Piloto.

CDHEP: O que mudou para você após conhecer a Justiça Restaurativa?

Marli: Antes de fazer o curso da Justiça Restaurativa não sabia o que significava. Fui intensamente afetada pelo curso, primeiro pela metodologia da formação, depois pela profundidade do conteúdo. Perceber que a prática restaurativa é fundamental para recomeçarmos a nossa história de seres humanos reformulando o nosso conceito de violência. O que mais impactou foi perceber que o nosso modelo de ensino é um modelo que pune e é violento o tempo todo, e justificamos essa violência com a falta de compreensão dos nossos pequenos alunos. A base de ensino da violência tem aumentado o índice de agressividade em todos nós.  Para mim mudou tudo porque, embora a minha visão a respeito de muita coisa já era diferente, na prática esse trabalho me fez perceber como as perguntas restaurativas fazem a magia do entendimento. É muito interessante, fico muito maravilhada com o resultado que podemos alcançar nesse processo. Sabemos também que para essas práticas nem todas as pessoas estão preparadas. Nas escolas onde atuamos mais intensivamente, muitas coisas mudaram, como, por exemplo, professores que não acreditaram na ideia da formação a princípio toparam a proposta de fazer círculos de construção de paz em todas as turmas no início do ano letivo de 2016. Mais que isso, é dar continuidade à ideia de fazer corriqueiro o uso dos círculos de construção de paz e com essa prática poder propor um novo modelo de ensino e aprendizagem com a circularidade. Acredito que isso pode mudar muita coisa na escola, como já tem mudado.

Algumas práticas do ano passado foram fantásticas pela receptividade e pelo acolhimento do curso dos Fundamentos em Justiça Restaurativa. Assim também a formação com os alunos do 6º ano que fizeram o curso da Arte de Viver e Conviver, uma versão adaptada da Escola de Perdão e Reconciliação para pessoas entre 7 a 14 anos. A retroalimentação dos professores sobre os resultados positivos. Nesse ano a abordagem tem sido diferente, mas, ao escutar os alunos das diversas escolas encaminhados, temos percebido uma resposta muito positiva. E ainda, propusemos os círculos de construção de paz para outros professores darem continuidade. Com apoio do Núcleo Comunitário de Práticas da Justiça Restaurativa de Cascavel iniciaremos novamente duas turmas na escola piloto para formarmos mais pessoas neste conceito.

CDHEP: O que a prática restaurativa mudou na rotina dos alunos das escolas em que você trabalhou?

Marli: A reposta do trabalho restaurativo com as turmas tem sido muito positiva, embora muitos profissionais na escola ainda não tenham a dimensão do processo restaurativo. No entanto, nas escolas onde temos proposto a sensibilização e os círculos de construção de paz, assim como a abordagem da ética do cuidado a fim de focarmos o tema do bulliyng, alcançaram excelentes resultados. As ações individualizadas com os alunos que participam de Círculos Restaurativos na escola têm um papel fundamental quando o acordo entre aluno e escola é escrito pelo aluno e assinado por todos ao fim do acordo.

Muita coisa mudou, pois hoje estou fazendo o meu trabalho pedagógico investindo no ser humano muito mais do que antes. A prática restaurativa me deu instrumentos para trabalhar os fatos com outra perspectiva que é a da responsabilização, da reparação e da restauração das relações. Embora o trabalho necessário a ser desenvolvido na escola exija um envolvimento muito mais intenso, sei que muitas situações de intervenção mudam a visão do aluno e da família quando ouvidos por meio das perguntas restaurativas. Tanto o trabalho desenvolvido com as turmas nos círculos de construção de paz, quanto os cursos mais longos promovem uma reflexão profunda que poucos conhecimentos teóricos são capazes de oferecer. O maior presente que vejo nesse processo são os círculos restaurativos que nos reúnem por pouco tempo, mas oferecem tamanha estrutura reflexiva.

CDHEP: A partir da sua experiência profissional, quais as possibilidades que visualiza para a JR em uma perspectiva futura?

Marli: Vejo muita mudança a partir do nosso envolvimento como Núcleo Comunitário de Práticas de Justiça Restaurativa de Cascavel, que está ganhando força. Em junho de 2016 assinamos o Termo Técnico de Parceria entre a 12ª Vara da infância e Juventude de nossa cidade, o NRE – Núcleo Regional de Educação, o Tribunal de Justiça e a UNIVEL que é uma Universidade particular em Cascavel. Também será incluído o CENSE que é uma unidade de internação com privação de liberdade para adolescentes e jovens. O meu trabalho está mais diretamente voltado ao Núcleo Regional de Educação de Cascavel, mas também desenvolvo formação e as práticas restaurativas voluntariamente. A minha expectativa com relação ao trabalho da Justiça Restaurativa é imensa, não acredito que essa construção tenha fronteiras, cada um que participa do processo dos círculos que promove mudanças, dá continuidade a esse encaminhamento e assim influencia muitos outros.

Quem faz o curso de Fundamentos de Justiça Restaurativa – ESPERE nunca mais será o mesmo. Essa é a razão por perceber a grandeza de tudo isso.

Sei que ainda teremos muito trabalho para que a nossa cidade inicie os procedimentos restaurativos, no entanto, a dinâmica da violência que vem se apresentando até então não pode trazer os resultados positivos esperados de uma nova cultura. Acredito que a Justiça Restaurativa fará de nossa humanidade, passo a passo, criaturas melhores. Não tenho a ilusão de que essa dinâmica se instaure de um momento para outro, mas estamos iniciando um novo paradigma. Acredito que todas as pessoas cansadas de tanta violência buscarão a cultura da paz que está se instaurando.

Os resultados dos casos que o Ministério Público nos encaminhou são de manter a expectativa em alta, pois em 86% dos casos trabalhados não houve reincidência. Esse número é animador para os facilitadores do Núcleo e para o judiciário. Além disso, temos um alto número de pessoas formadas, só no NRE são 153 pessoas. Nesse momento estou trabalhando no Núcleo sozinha, mas dentro de poucos dias terei uma colega com trabalhando comigo.

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