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Relato do 8 de março: Periferia Segue Sangrando


Por Anabela Gonçalvez, Danielle Braga, Jenyffer do Nascimento e Alessandra Tavares

Com toda essa nojeira universal sobre a mulher e seu papel social, as mulheres da periferia resolveram dar seu grito emancipatório e programar um evento onde nada teria mais valor do que passar o 8 de março compartilhando nossos saberes, nossa fome, nossas alegrias e as dores gigantes que vivemos diariamente.

O Dia Internacional da Mulher é um dos dias mais vexatórios do calendário, talvez menos que o dia das mães, mas mesmo assim, um dia esvaziado de significado, seja pela corrupção midiática sobre o valor histórico e político desse dia, seja pela propaganda esquizofrênica do corpo feminino em todos os produtos.

Com toda essa nojeira universal sobre a mulher e seu papel social, as mulheres da periferia resolveram dar seu grito emancipatório e programar um evento onde nada teria mais valor do que passar o 8 de março compartilhando nossos saberes, nossa fome, nossas alegrias e as dores gigantes que vivemos diariamente. Partilhar nossa experiência, nossas músicas, nossa arte e nosso conhecimento na busca de uma pedagogia feminina, num jeito de ser e fazer que é nosso e ao mesmo tempo nos é negado.

Já era grande por tudo que o dia e o encontro representavam em nossas vidas, mas existem mais questões em torno desse encontro. A primeira, era o norte que encontramos no Coletivo de Grafite Punga Crew “A periferia segue sangrando”.  A sociedade patriarcal e capitalista estabelece suas relações com as mulheres a partir de seu corpo, por meio da mestruação, do parto, do aborto, da sexualização e, mesmo que algumas mulheres tentem levar suas vidas com outras referências, esse ainda é o contexto geral.

Por isso, pensar no sangue e jorrá-lo agora para mostrar que tanto nós mulheres quanto a periferia sangra. Sangra diariamente com chacinas, sangra pelos abortos clandestinos, sangra como o aborto social das mulheres e de seus saberes e seu fazer. A força do sagrado feminino se fez presente. No olhar, na palavra, no traço, no choro e no abraço. Foi um encontro de partilha de trajetórias que careciam de se encontrar, criando uma conexão única. A sensação experimentada era de um senso de propósito, talvez nunca antes experimentado pela maioria de nós.

Bonito de ver a inteireza de cada uma dentro desse processo, não havia lacunas, espaços vazios, tudo foi preenchido, absolutamente tudo. Cada uma não era apenas uma, era uma e todas as outras, em uma unidade incomum. O sangrado se fez presente também na possibilidade de troca e partilha de outras trajetórias, do masculino, num círculo tão sangrado e sigiloso quanto o nosso, mas estava claro, estamos construindo esse novo caminho com vocês, mulheres, experimentando outras formas de ser e fazer numa sociedade que silencia e invisibiliza.

Sabemos o que somos e o que podemos. Somos mulheres periféricas. As ruas precisam conhecer a nossa força.  Somos muitas. Imbuídas desse sentimento, tomamos as ruas em um cortejo. Nossas dores mais segretas, mais íntimas, são acima de tudo, pública. Elas contam uma história: a história das mulheres da periferia. Não há submissão que possa com nosso caminhar, nossos punhos cerrados e corações palpitantes e o nosso brado de libertação. O tambor anuncia a ladainha evocando todas as mulheres viva ou adormecidas no seio da quebrada: “mãe dos filhos descalços, mulheres das ocupações periféricas, mãe dos sexos forçados, mãe dos filhos assassinados, mães trabalhadoras…” Lutamos com Vós, hoje e sempre!

Somos como uma colcha de retalhos, cada um com sua cor, seu brilho, sua textura. E para celebrar a beleza de ser mulher, apesar de todas as torturas as quais estamos submetidas, o brado é forte, o canto e a poesia também são nossos revides.

O processo de criar o tempo e o espaço para a voz das mulheres e poder fazer perceber que o mesmo sangue que escorre em mim, escorre em tantas outras mulheres periféricas foi  fundamental para solidificar as bases  de uma união coletiva de mulheres. Dia 8 de março foi o dia em que pintamos, registramos, falamos e ouvimos nossas histórias pela boca de mulheres semelhantes a nós, foi um encontro intergeracional, interracial e de interesses não nos diferenciam quando o assunto é a luta das mulheres.

Nesse dia 8, no Bloco do Beco, Jardim Ibirapuera, descobrimos o poder que um espaço aberto para que as histórias possam ser ditas e como esse quase simples fato serve para nos fortalecer e fazer perceber que não estamos sozinhas. Trazer toda linguagem simbólica para o círculo nos dá a possibilidade de trazer nossas interpretações com base nas nossas vivências, portanto não importa a nossa origem, nossa escolaridade, nossos conhecimentos teóricos, importa apenas o que a palavra e a minha história tem a dizer.

Construção coletiva e comunitária de mulheres que suam, choram, sentem o gosto amargo de verem seus frutos sendo tirados de suas entranhas as marcando com o sangue que é compartilhado pelas mães, filhas, tias, avós e netas e todas as mulheres que seguem o cotidiano periférico. Só quem vive essa dor e luta pode entender as marcas deixadas na pele. Era pra ser uma cobertura, mas não existe possibilidade de formalizar um sagrado que se estende pelo ar.

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