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Sobre a luta contra a tarifa: relato de uma trabalhadora periférica

Sem mobilização para a luta, no entanto, seguiremos em ritmo de competição, nos digladiando por espaço nos ônibus superlotados e sendo derrotados aos poucos a cada catraca que não pulamos.

Por Anabela Gonçalves

O transporte público é um problema que aparentemente parece não ter ligação direta com todo resto de nossas vidas, mas é o maior engodo de nossa cidade.

Em 2007, entrei na FESPSP para fazer o curso de Sociologia no centro de São Paulo. Na época eu já trabalhava na Secretaria do Estado da Cultura, no Bom Retiro, e sentia todos os dias o peso de acordar às 5h30 da manhã para chegar ao ponto próximo ao Terminal João Dias, pegar o ônibus Estação da Luz às 6 horas, e conseguir chegar às 8h da manhã no centro, horário de bater meu ponto.

Logo essa linha Estação Luz foi cortada e tudo piorou. Eu tinha que pegar uma linha até a Nove de Julho e lá pegar outro. Nenhum dos trabalhadores e das trabalhadoras que utilizavam essa linha foi consultado a respeito dessa mudança; ela foi imposta e nós tivemos que aceitar como aceitamos diversas outras politicas para cidade que o Estado nos impõe e que são contrárias aos nossos interesses. A vida na cidade é tão exaustiva, são tantas as preocupações e tanto estresse, e nem sempre conseguimos nos manifestar contra as mudanças que nos são impostas.

Não aguentei esse trajeto diário: assim que pude abandonei a periferia e fui morar no baixo centro, próximo ao Minhocão, para conseguir estudar de forma descente. Acordar às 5h45 e dormir quase à 1h da manhã não possibilita a ninguém uma vida acadêmica e profissional produtiva, só traz esgotamento e frustração.

Para agravar minha situação sou mãe solteira de uma linda menina que via a mãe muito pouco. Nessa época ela já tinha 7 anos, mas ainda não conseguia entender o que havia ocorrido. Com tempo teve que se habituar à ausência da mãe.

O que mais me cansava? O percurso, os ônibus cheios, as baldeações, a tarifa, tudo isso. Mas não poder estar no meu bairro e com a minha filha foi o que me incomodou mais. O que pode frustrar mais um trabalhador: não ter tempo para estar com a família ou aguentar a derrota de não terminar o curso acadêmico?

É nesse sentido que aponto que o transporte público não implica somente na mobilidade, mas em todas as decisões da nossa vida, ele governa nossas decisões sobre nosso desenvolvimento social. O corte de linhas e o número limitado de ônibus é parte dos diversos problemas da cidade que vem embrutecendo nossas vidas. Para irmos ao trabalho, quando registrados em empresa, pagamos 6% dos nossos salários para o transporte. Já os autônomos tiram do seu bolso todo o dinheiro dessa tarifa absurda. Também pagamos essa tarifa para acessar serviços públicos, que supostamente não são pagos. O lucro das empresas se tornou mais importante do que as mobilidades das pessoas.

Os discursos contrários aos atos contra a tarifa são absurdos e revelam o quanto estamos desligados do quanto isso permeia nossas vidas. O transporte público deve ser um direito básico, pois toda nossa vida depende dele. A existência da tarifa faz com que fique invisível os impostos que já pagamos e que servem para custear todos os direitos básicos, como deveria ser com o transporte.

Essa questão, no entanto, não se limita ao alto valor da tarifa, pois são diversos os problemas do transporte público, como superlotação, atrasos e falta de informações sobre o itinerário – situações a que os passageiros já estão “habituados”, mas que representam desrespeito aos seus direitos.

Tal sucateamento, além de ferir um direito da população, também representa outro problema. Nos moldes capitalistas, os serviços públicos são realizados na relação de consumo e, portanto, os direitos dos passageiros são garantidos pelo CDC – Código de Defesa do Consumidor. Como informa o artigo 22 do Código, os serviços públicos devem ser prestados de forma adequada, eficiente e segura, sejam eles operados diretamente pelo órgão público ou por uma empresa concessionária ou permissionária, e isso não ocorre em hipótese nenhuma, pelo menos não nas periferias da cidade, ou seja, o estado sequer consegue fazer valer o código.

As melhorias apontadas pela Secretaria de transporte, como o “passe livre” somente para os estudantes, o vale transporte para o trabalhador, fraciona a vida como se ela só acontecesse no trabalho ou na escola, no que se refere à vida produtiva. Não considera a complexidade da vida na cidade, como o lazer e a cultura, ida ao médico, ao banco e diversas outras ações para as quais o transporte público é fundamental, pois os serviços públicos não estão distribuídos igualmente pela cidade.

Ao mesmo tempo, a atual gestão também, quando concede o “passe livre” somente para um segmento e aumenta para outro, divide a população nos interesses diferentes entre os grupos, em clara estratégia para desmobilizar a luta. Como sempre, quem paga a conta é o trabalhador(a), e não os empresários.

O transporte tem quem ser de direito para todos e todas, sem segmentações, pois somente assim teremos direito à cidade como um todo. Sem mobilização para a luta, no entanto, seguiremos em ritmo de competição, nos digladiando por espaço nos ônibus superlotados e sendo derrotados aos poucos a cada catraca que não pulamos.

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