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  • Muller Silva

Carmen Faustino é negra, poeta, escritora, articuladora cultural, pesquisadora e ativista


Carmen Faustino é mulher, negra, poeta, escritora, arte-educadora, articuladora cultural, pesquisadora e ativista em São Paulo. Possui formação em Letras, especialização em História da África e cultura Afro Brasileira. É uma das idealizadoras e articuladora do Núcleo Mulheres Negras, de vivências coletiva e discussões sobre as questões raciais e de gênero, integra o Mjiba em Ação, coletivo de produção literária negra feminina, além de coordenar o projeto Baobá – Fortificando as raízes, de formações sobre África e Africanidades. Tem textos e poemas publicados em antologias poéticas como o Pretextos de Mulheres Negras e Feminina – Periferia um pedaço da África; nas revistas O Menelik – 2º Ato e Fala Guerreira; e na publicação Sujeitos, frutos e percursos – Projeto jovens facilitadores de práticas restaurativas, pelo CDHEP.

CDHEP: Qual foi o impacto da formação em Justiça Restaurativa para você?

Carmen: Um impacto importante foi a possibilidade que desenvolvi para uma percepção e elaboração mais organizada das minhas subjetividades, que me trouxeram maior empatia, respeito e compreensão pelas minhas histórias e consequentemente, pelas histórias de outras pessoas.

Eu, mulher negra e periférica, como tantas outras que viveram e ainda vivem um processo histórico de abandono e silenciamento de suas especificidades e seu valor, pude aprofundar minhas reflexões sobre as violências vividas pelas discriminações raciais e de gênero, tão banalizadas socialmente, mas que causam dores profundas.

No processo de imersão, resgatei memórias de violências simbólicas vivenciadas na infância e adolescência, muitas até então esquecidas e/ou bloqueadas pelo meu subconsciente, e também pude olhar para os meus traumas atuais, que perpassam nos aspectos da minha vida profissional, familiar, social e afetiva.

Olhar esse universo de complexidades que compõe a mim e cada pessoa que experienciou a Justiça Restaurativa, fortaleceu meu senso de humanização, valores e entendimento de ações, que até então eu desenvolvia empiricamente, mas não nomeava. Hoje, pratico constantemente o exercício para uma comunicação mais assertiva, maior respeito aos meus limites emocionais e sensibilidade com o tempo do outro.

CDHEP: O que mudou no seu trabalho?

Carmen: Acessar essa dor acumulada e externalizar todas as angústias foi a proposta inicial do Núcleo comunitário de Mulheres Negras, formado por mulheres negras que participaram das formações em Justiça Restaurativa. E a partir de março de 2015, passamos a nos reunir mensalmente para partilhar nossas histórias de amor e dor em círculos de paz, na perspectiva de oferecer fala, escuta, acolhida e identidade as participantes. Esses encontros, que acontecem desde então, me transformaram em diversos aspectos subjetivos e também nas práticas cotidianas, mas principalmente no exercício de fala e escuta, e na maneira que desejo lidar com toda essa bagagem que existe em mim e está longe de se findar, uma vez que estamos em uma sociedade distante de extinguir as práticas racistas e machistas. Olhar para minhas histórias com cuidado, respeito e me ver refletida em diversas outras histórias das minhas iguais, me proporcionam fortalecimento, identidade e cura, para permanecer um pouco mais saudável em uma sociedade que insiste em tirar nossa humanidade.

CDHEP: A partir da sua experiência profissional e pessoal, quais as possibilidades que visualiza para a Justiça Restaurativa em uma perspectiva futura?

Carmen: Quando falamos para uma mulher negra sobre suas emoções e subjetividades é necessário olhar e refletir sobre racismo e o machismo vivido diariamente, questões ligadas diretamente a fortes cargas emocionais, que foi suprimida historicamente e hoje nos condiciona ao silêncio.

As metodologias dos fundamentos e práticas da Justiça restaurativa, aplicadas em grupos comunitários, como os encontros mensais do Núcleo Mulheres Negras, são potentes instrumentos de transformação e cura, tanto nos processos individuais como nos coletivos, pois possibilitam uma profunda imersão em suas subjetividades, dores e angústia. Elas também ajudam a melhorar a compreensão, o empoderamento, o cuidado e autocuidado, trabalhando na perspectiva que, apesar das estatísticas que apontam as mulheres negras como maiores vítimas de violências, existem muitos traumas que essas mulheres carregam e que não estão relacionados diretamente à uma experiência violenta, ou a um sujeito “agressor” e sim a todo um sistema social que oprime e discrimina constantemente essa importante parcela da nossa população.

Perceber nossas especificidades e conseguir olhar para nossas dores com empatia e respeito é um passo importante para a busca de vivências e relações mais humanas e saudáveis, uma prática de autocuidado que pode nos levar a cura.

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